A Síndrome da “Boa Menina”: Desvendando as Amarras Invisíveis da Personalidade

A “Síndrome da Boa Menina” é um padrão de comportamento, predominantemente observado em mulheres, caracterizado pela busca incessante por aprovação, pela dificuldade em expressar necessidades e impor limites, e por um medo profundo de desagradar ou entrar em conflito. Embora não seja um diagnóstico clínico formal, este termo descreve um conjunto de atitudes e crenças que podem gerar significativo sofrimento emocional e impactar a formação da personalidade e a saúde mental. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Terapia do Esquema oferecem um arcabouço teórico robusto para compreender e tratar as raízes deste padrão

A Construção da “Boa Menina”: Crenças Centrais e Esquemas
Para entender a relação entre a “Síndrome da Boa Menina” e a formação da personalidade, é fundamental recorrer aos conceitos de Crenças Centrais da TCC e de Esquemas Iniciais Desadaptativos da Terapia do Esquema.
De forma simples, imagine que desde a infância, somos como uma esponja, absorvendo as mensagens do ambiente para formar nossa visão sobre nós mesmos, os outros e o mundo.

Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC):
A TCC postula que nossas emoções e comportamentos são influenciados pela forma como interpretamos os acontecimentos. No cerne dessas interpretações estão as Crenças Centrais, que são ideias profundas e rígidas sobre quem somos. Para a “boa menina”, as experiências de infância – como ser recompensada por ser quieta e obediente ou punida por expressar raiva ou desejos – podem levar à formação de crenças centrais disfuncionais, tais como:

  • “Para ser amada, preciso agradar a todos.”
  • “Minhas necessidades não são tão importantes quanto as dos outros.”
  • “Se eu expressar minha opinião, serei rejeitada.”
  • “Preciso ser perfeita para ser valorizada.”

Essas crenças funcionam como um “manual de instruções” interno, guiando a pessoa a agir de maneira a sempre buscar validação externa, suprimir suas próprias vontades e evitar qualquer tipo de confronto.

Na perspectiva da Terapia do Esquema:
A Terapia do Esquema, uma abordagem que aprofunda a TCC, foca nos Esquemas Iniciais Desadaptativos. Estes são padrões emocionais e cognitivos autossabotadores que se originam em necessidades emocionais não atendidas na infância (como segurança, afeto, autonomia e limites). A “Síndrome da Boa Menina” está frequentemente associada a esquemas como:

  • Esquema de Subjugação: A pessoa se sente coagida a submeter suas próprias necessidades e emoções aos outros para evitar retaliação, raiva ou abandono. Ela acredita que seus desejos não são importantes.
  • Esquema de Autossacrifício: Há um foco excessivo e voluntário em satisfazer as necessidades alheias em detrimento da própria gratificação. A pessoa se sente responsável pela felicidade dos outros, o que pode gerar ressentimento e exaustão.
  • Esquema de Busca por Aprovação/Reconhecimento: A autoestima está diretamente atrelada à aprovação e ao reconhecimento dos outros, e não a um senso de valor próprio. Isso leva a um esforço constante para impressionar e a uma grande sensibilidade à rejeição.
  • Esquema de Padrões Inflexíveis/Crítica Exagerada: A pessoa acredita que deve sempre atingir padrões de comportamento e desempenho extremamente elevados, geralmente para evitar críticas. Isso se manifesta como perfeccionismo e uma autocrítica severa.
    A personalidade, portanto, é moldada em torno da tentativa de lidar com a dor gerada por esses esquemas. A “boa menina” se torna uma expert em antecipar as necessidades dos outros, em ser prestativa e em evitar qualquer situação que possa ativar suas crenças de desvalor e medo de abandono.

O Melhor Tratamento: Uma Abordagem Integrada
O tratamento mais eficaz para a “Síndrome da Boa Menina” é a psicoterapia, com destaque para a Terapia do Esquema, por sua profundidade em lidar com as raízes emocionais do problema, e a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), por suas estratégias práticas de mudança de comportamento.

Ao integrar as estratégias da TCC com a profundidade da Terapia do Esquema, o tratamento permite não apenas uma mudança nos comportamentos superficiais, mas uma reestruturação mais profunda da forma como a pessoa se vê e se relaciona com o mundo, permitindo que a “boa menina” dê lugar a uma mulher autêntica, segura e livre para ser quem realmente é, através de uma personalidade renovada.

Por: Gracy Kelle Silva – Psicóloga TCC e Terapeuta de Família e Casal.

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Isabele Miranda

Redator

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