Comer não é apenas um ato físico. É também emocional e social. Comer está relacionado a sensação de prazer e por isso, muitas vezes, comemos mais do que seria indicado para suprir as necessidades do nosso organismo, mesmo sem fome. Quem nunca repetiu aquele bolo caseiro da avó? Ou se empanturrou na feijoada da família?
Comer demais de vez em quando acontece com todas as pessoas, principalmente nos finais de semana ou eventos especiais. Entretanto, existem pessoas que perdem esse controle com muita frequência e a relação com a comida passa a ser marcada por episódios de perda de controle frequentes, associados a culpa e sofrimento, sinais clássicos da compulsão alimentar.

Segundo a psiquiatra Dra. Maria Fernanda Caliani, a compulsão alimentar vai muito além de “falta de força de vontade”.
“Estamos falando de um transtorno que envolve saúde mental, emoções, neurobiologia e comportamento. A comida, nesses casos, não é o problema, ela é a tentativa de aliviar algo que está em desequilíbrio”, explica a médica.
Sintomas que merecem atenção
A compulsão alimentar costuma acontecer em ciclos e nem sempre é percebida logo no início. Alguns sinais de alerta incluem:
• Episódios frequentes de ingestão exagerada de alimentos em pouco tempo;
• Sensação de perda de controle ao comer;
• Comer mesmo sem fome física;
• Comer escondido ou com vergonha;
• Culpa, tristeza ou ansiedade após os episódios;
• Uso da comida para lidar com estresse, frustração ou vazio emocional.
“É comum que o paciente só procure ajuda quando o sofrimento emocional já está grande ou quando surgem consequências físicas importantes”, alerta a psiquiatra.
O impacto emocional invisível
A compulsão alimentar afeta autoestima, relações sociais e a forma como a pessoa se enxerga. Muitas vivem presas a um ciclo de restrição, compulsão e culpa, reforçado por dietas rígidas e cobranças externas.
“Quanto mais a pessoa se culpa, mais o comportamento tende a se repetir. A autocrítica excessiva alimenta o transtorno”, destaca Dra. Maria Fernanda.
Tratamento: olhar para a mente é essencial
O tratamento da compulsão alimentar precisa ser individualizado e multidisciplinar. Ele pode envolver:
• Acompanhamento psiquiátrico, para avaliação diagnóstica e, quando necessário, uso de medicação.
• Psicoterapia, especialmente abordagens focadas em comportamento e regulação emocional.
• Educação alimentar, sem dietas restritivas.
• Estratégias para manejo de ansiedade, estresse e emoções.
“O objetivo não é apenas controlar a comida, mas entender o que está por trás daquele comportamento”, reforça.
E as canetas emagrecedoras? Onde elas entram?
Medicamentos injetáveis usados para emagrecimento têm ganhado espaço e visibilidade. Segundo a psiquiatra, eles podem ser aliados, mas não são solução mágica e muito menos indicados para todos.
“Essas medicações atuam em mecanismos de fome e saciedade, mas não tratam sozinhas a origem emocional da compulsão. Sem acompanhamento adequado, o risco é trocar um sintoma por outro”, explica Dra. Maria Fernanda Caliani.
Quando bem indicadas e acompanhadas por um profissional, podem ajudar a reduzir impulsividade alimentar. Mas o tratamento precisa continuar olhando para a saúde mental.
Comer em paz também é saúde mental
Falar sobre compulsão alimentar é abrir espaço para menos julgamento e mais cuidado. É entender que pedir ajuda não é fracasso é consciência.
“A relação com a comida pode ser reconstruída. Com apoio, informação e tratamento adequado, é possível viver com mais equilíbrio e menos culpa”, finaliza a psiquiatra.
Dra. Maria Fernanda Caliani – Psiquiatra – CRM – 140.770 / RQE 71653



