Renan Aleluia analisa diferenças entre os mercados de saúde do Brasil e dos Estados Unidos

Fundador da Aleso & Company, Renan Aleluia de Souza analisa diferenças estruturais, financeiras e de ciclo entre os mercados de saúde brasileiro e americano

Os mercados de saúde do Brasil e dos Estados Unidos apresentam diferenças relevantes em escala, estrutura e dinâmica de inovação. A análise foi apresentada por Renan Aleluia de Souza, fundador da Aleso & Company e profissional reconhecido por sua atuação nas áreas de finanças, saúde e tecnologia, com projetos voltados aos mercados brasileiro e americano.

De acordo com o especialista, os Estados Unidos possuem aproximadamente o dobro de médicos e leitos hospitalares em relação ao Brasil. Ainda assim, o mercado americano de saúde movimenta cerca de 24 vezes mais recursos financeiros do que o brasileiro.

Em uma análise compartilhada por Renan Aleluia, os dados apontam que o Brasil possui cerca de 427 mil leitos hospitalares e 575 mil médicos, enquanto os Estados Unidos contam com aproximadamente 916 mil leitos e 1,1 milhão de médicos. Apesar da diferença estrutural relativamente proporcional, o mercado americano de saúde movimenta cerca de US$ 4 trilhões, contra aproximadamente US$ 163 bilhões do mercado brasileiro.

Dois mercados, dois ciclos: o paradoxo do momento atual

Essa assimetria de escala se traduz, em 2026, em ciclos financeiros diametralmente opostos. No Brasil, abril e maio marcaram o início de uma onda de reestruturações agressivas entre as principais consolidadoras hospitalares: a Kora Saúde – controlada pelo fundo americano H.I.G. Capital, detentor de cerca de 80% das ações – teve seu plano de recuperação extrajudicial aprovado para renegociar aproximadamente R$ 1,3 bilhão em dívidas financeiras, enquanto Oncoclínicas e Alliança Saúde iniciaram processos semelhantes no mesmo período. O cenário reflete a ressaca de um ciclo agressivo de M&A entre 2020 e 2022 – a própria Kora fechou dez aquisições nesse intervalo, terminando 2025 com dívida líquida de R$ 2,5 bilhões e alavancagem de 4,67x dívida líquida/EBITDA – agora insustentável com a Selic em 14,5% ao ano.

Nos Estados Unidos, o movimento é exatamente o inverso. Apesar das recentes mudanças e cortes de financiamento pelo Medicaid e Medicare, o private equity em saúde registrou em 2025 valor recorde de US$ 191 bilhões em transações divulgadas, superando o pico anterior de 2021, com aproximadamente 445 buyouts anunciados, segundo o Global Healthcare Private Equity Report 2026 da Bain & Company. O segmento concentra hoje as maiores transações de take-private da década, incluindo a aquisição pendente da Hologic por Blackstone, TPG, ADIA e GIC por até US$ 18,3 bilhões, e o take-private da Walgreens pela Sycamore Partners avaliado em até US$ 23,7 bilhões. O volume de buyouts financeiros em healthcare nos EUA dobrou de US$ 16,4 bilhões em 2024 para US$ 38 bilhões em 2025, conforme dados da Mergermarket, e plataformas controladas por PE já representam mais de 40% das aquisições de práticas médicas no país.

“É um contraste que ilustra bem como o capital se reorganiza globalmente”, observa Aleluia. “Enquanto o setor brasileiro recua para preservar caixa e renegociar passivos contraídos na era de juros baixos da pandemia, o mercado americano transformou healthcare no segmento mais ativo de M&A, private equity e venture capital – sustentado por dry powder abundante, reabertura da janela de IPOs e maior previsibilidade de reimbursement em subsetores de qualidade.”

A natureza da inovação como diferencial estrutural

Para Aleluia, uma das principais diferenças entre os dois países está na forma como a inovação em saúde se desenvolveu ao longo dos anos.

“Nos Estados Unidos, grande parte da inovação acontece fora dos hospitais, com o crescimento de healthtechs, plataformas digitais, clínicas especializadas, terapias digitais e novos modelos de cuidado”, afirma.

De acordo com o especialista, o alto custo e a imprevisibilidade do sistema americano abriram espaço para soluções descentralizadas, impulsionando investimentos em tecnologia e novos serviços voltados à saúde. Não por acaso, é justamente nesses subsetores – behavioral health, physician services, tech-enabled care delivery – que se concentra hoje a maior pressão competitiva entre fundos de PE no mercado americano.

Já no Brasil, o modelo ainda permanece fortemente concentrado em hospitais e na relação tradicional entre médico e paciente, característica que influencia diretamente a velocidade de desenvolvimento de novas soluções – e que ajuda a explicar por que a tese de consolidação hospitalar, embora promissora no papel, encontrou os limites do custo do capital no ciclo atual.

Sobre a Aleso & Company

Fundada em São Paulo em 2021, a Aleso Consulting expandiu sua atuação internacional por meio da Aleso & Company LLC, sediada em Tampa, nos Estados Unidos. A empresa atua com uma abordagem integrada que combina expertise em engenharia financeira, estruturação de operações de M&A, transformação operacional, tecnologia em saúde, desenvolvimento e gestão operacional de softwares e estratégia para empresas dos mercados de saúde e farmacêutico.

Para Renan Aleluia de Souza, o avanço da integração entre saúde, tecnologia e finanças deve continuar impulsionando novos modelos de negócio e transformação digital em diferentes mercados nos próximos anos.

 

Fontes consultadas: Bain & Company – Global Healthcare Private Equity Report 2026; Mergermarket/ION Analytics (jan/2026); Ropes & Gray, Navigating Healthcare M&A in 2026 (fev/2026); Times Brasil/CNBC, InvestNews, Neofeed, InfoMoney e A Gazeta (abr-mai/2026).

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